Como seria a vida profissional se as avaliações de desempenho fossem sinceras?

17/01/2017


O DIA DA VERDADE

  • Entre, Daniela. Vamos tentar matar essa sua avaliação o mais rapidamente possível, porque, na minha opinião, ela não serve para nada, mas a empresa me obriga a fazê-la.
  • Para mim, avaliações são muito importantes, chefe, desde que feitas por alguém com sensibilidade, o que não é o seu caso. Isso sem mencionar o seu mau hálito.
  • No fundo, Daniela, meu problema com você não é bem avaliação. É que você é muito chata.
  • Posso saber o que o senhor quer dizer com isso?
  • Chata é a pessoa que me interrompe quando estou falando e sempre diz alguma coisa mais inteligente e sensata do que eu estava dizendo. É o seu caso.
  • Eu não tinha percebido isso. Mas, agora que o senhor me alertou, vou fazer o possível para interrompê-lo com muito mais freqüência.
  • Muito bem. Isto é, muito mal. Bom, deixe-me ver se eu entendo essa porcaria de formulário. Somando-se todos os pontos, seu desempenho foi excelente, o que obviamente me deixa apavorado.
  • O senhor sabe que sempre fiz o possível para me desempenhar bem. Nunca me passou pela cabeça apavorá-lo, embora isso me dê uma satisfação enorme.
  • Ótimo. Quer dizer, péssimo. Obviamente, embora você tenha sido excelente, eu pretendo avalia-la como "regular". Só preciso encontrar um ou outro ponto fraco para diminuir a sua nota.
  • Que tal "trabalho em equipe"? Porque eu não gosto de trabalhar em grupo e muito menos nesta empresa, que só convoca reuniões quando não quer decidir nada.
  • Grande sugestão! Por que eu não tinha pensado nisso antes?
  • Porque pensar nunca foi o seu forte.
  • Então, como você concorda que é apenas"regular", eu tenho a satisfação de lhe comunicar que você não terá nenhum aumento de mérito este ano.
  • Estou de pleno acordo. Apenas lamento não poder esganá-lo neste exato momento.
  • Você ainda é jovem, não faltará oportunidade. Assine aqui na linha de "ciente".
  • Pois não. O senhor acredita que será despedido em breve? Aí, quem sabe, eu poderia ter um chefe menos insuportável.
  • Nunca se sabe. Em todo caso, espero que antes disso eu consiga achar algum pretexto para me livrar de você. E agora, com licença, tenho assuntos sérios para resolver.
  • Ler jornal, não é? Bom, se o senhor precisar de mim, estarei ali fora, admirando a sua incompetência...

NA VIDA PRÁTICA...

Como avaliações não funcionam tão sinceramente como deveriam funcionar, voltemos à vida real...

  • Daniela, vamos à sua avaliação. Hoje é o dia da verdade.
  • Mas, chefe, hoje é primeiro de abril.
  • É só uma coincidência de datas, Daniela, porque no mundo corporativo todo dia é primeiro de abril.

Avaliar significa "atribuir valor". E isso não é bom, porque, bem lá no fundo desse "atribuir", há sempre uma overdose de julgamento subjetivo. Ou, traduzindo para linguagem corporativa, chefes atribuem ao funcionário um valor menor do que ele realmente tem. Chutam lá para baixo, como se o funcionário fosse um carro usado, para depois poderem convencê-lo de que ele deveria estar satisfeito por não ter ainda sido despachado para um desmanche. E, além disso, para compensar, dali em diante, o funcionário será convidado a rodar mais rápido e com menos combustível.


Referência

Livro: Relações Desumanas no Trabalho: da primeira entrevista à aposentadoria

Autor: Max Gehringer

Editora: Casa da Qualidade